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Norte-americana quebra tradição e obtém licença de mergulho ancestral na Coreia do Sul
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Na pequena vila costeira de Youngrak-ri, localizada no extremo oeste da ilha de Jeju, uma tradição centenária ganha novos contornos com a presença de Kylie Genter. Aos 36 anos, a norte-americana tornou-se a primeira e única estrangeira a possuir a licença oficial para atuar como haenyeo, grupo histórico de mulheres que realizam mergulho livre, sem tubos ou cilindros de oxigênio, para extrair frutos do mar comercialmente no litoral sul-coreano.
Natural do interior do estado de Nova York, Kylie iniciou sua trajetória na Ásia atuando como professora de inglês na cidade de Jinju. O interesse cultural e as oportunidades de trabalho a levaram a se mudar para Jeju há dez anos, onde encontrou uma rotina que se alinhava à sua afinidade com o ambiente rural. Mais tarde, ela chegou a frequentar uma escola de haenyeo para compreender melhor a história local, sem planejar, naquele primeiro momento, transformar a atividade em profissão.
A inserção no ofício decorre de uma crise demográfica que ameaça a continuidade da tradição. Dados do Museu Haenyeo apontam que, no ano passado, 63% das 2.371 mergulhadoras ativas tinham 70 anos ou mais, enquanto pouco mais de 1% contava com menos de 40 anos. Diante da escassez de sucessoras, a liderança pesqueira da vila decidiu flexibilizar as regras no início de 2024 e aceitou avaliar a candidatura de Kylie, após conversas conduzidas pelo chefe de pesca Kim Chang-sik.
A rotina nas águas exige sincronia e confiança mútua, uma vez que as trabalhadoras entram e saem do mar em conjunto para assegurar a sobrevivência do grupo em caso de acidentes. Inicialmente recebida com hesitação pelas veteranas, a mergulhadora estrangeira conquistou o respeito das colegas pela dedicação diária. A presidente local do grupo, conhecida como Hong, passou a considerá-la parte da família e elogia seu desempenho físico nas profundezas.
Fora da temporada de mergulho, Kylie administra com o marido um hotel para animais domésticos na ilha. Ela também utiliza redes sociais e apresenta um podcast para divulgar o cotidiano do mergulho tradicional, empenhada em combater o estigma de que a cultura haenyeo está condenada ao desaparecimento imediato e demonstrando que novas gerações continuam dispostas a enfrentar o oceano.
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